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Por que tão poucas treinadoras?



A data comemorativa do Dia Internacional das Mulheres, mundialmente, tem o intuito de conscientizar, refletir e explicitar problemáticas da desigualdade e da discriminação de sexo e de gênero, a violência e abuso contra mulheres, como também para comemorar e homenagear as vitórias de lutas passadas. É importante entender algumas possíveis causas do número baixo de mulheres atuando como treinadoras de futebol no Brasil.


Ano passado, em 2021, eu participei do curso de Capacitação de Treinadores Licença B da CBF Academy em São Paulo. Na minha turma, éramos 27 alunos, 26 homens e eu, a única mulher. No último dia de curso, em uma das apresentações dos trabalhos de conclusão, um aluno tomou a palavra para agradecer a experiência vivida durante a semana de aprendizado e aproveitou oportunidade para elogiar minha performance durante o curso, questionou o fato de não ter mais mulher e comentou: se vocês querem direitos iguais, por que não só se inscrever no curso?


O que parece uma pergunta genuína e simples, carrega em si uma complexidade muito maior para poder respondê-la.

Neste ano de 2022, com o início do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino A1, dos 16 times participantes, somente cinco são liderados por mulheres (Grêmio, Santos, Ferroviária, Atlético-MG e Red Bull Bragantino). Mesmo aparentando ser uma quantidade pequena, isto é um recorde da representatividade feminina no cargo de treinador desde a oficialização da competição.

Mas por que temos tão poucas mulheres nos cursos de capacitação e liderando equipes de futebol feminino?


Obviamente o número reduzido de mulheres nos cursos reflete no número de mulheres no comando em equipes profissionais e de base, principalmente desde que a CBF Academy se tornou a principal ferramenta de credenciamento para treinadores que atuam no Brasil.

Sabendo que, a princípio, mulheres e homens passam pelo mesmo processo seletivo e precisam ter os mesmo pré-requisitos para serem aceitos no curso, é interessante entendermos as dificuldades existentes neste processo seletivo.


Para cursar a Licença C, o candidato(a) precisa:


1. Ser formado em Educação Física (ou cursando o último ano).

2. Ser ex-atleta profissional de futebol profissional com Ensino Médio e com pelo menos 7 anos (7 temporadas completas) de carreira comprovada em atividade.

3. Treinadores/professores de escola de futebol (...) e com pelo menos 5 anos de experiência comprovada.


Analisando cada um:


Formação em Educação Física: A modalidade do Futsal sempre teve como cultura disponibilizar bolsa de estudos para seus atletas, porém no futebol de campo o cenário não se repete. Devido a salários baixos e esporádicos e à impermanência de atletas em um só time, torna-se quase inviável a aquisição de diplomas universitários ou o investimento particular neste.


Ex-atleta profissional de futebol: Os "7 anos como ex-atleta profissional com carreira comprovada" se torna ainda mais difícil de se comprovar. Futebol feminino foi proibido por quase 40 anos até 1979 e regulamentado somente em 1983. Além de algumas tentativas de criar uma liga nacional com dificuldades de estabilização e permanência, somente em 2006 em forma de Taça Brasil deu-se o início de campeonatos nacionais que aconteciam todos os anos. Depois, em forma de Copa do Brasil 2013 e o Campeonato Brasileiro da CBF em 2017, tendo a primeira competição internacional de clubes como Libertadores somente em 2009.


Lembrando que para exigir uma carreira profissional, o esporte tem que ser uma profissão, dando as condições necessárias para ser tratada como uma profissão. E isso só começou a acontecer há pouco tempo (possivelmente em 2017) com um campeonato nacional que ainda não completou 7 anos de estabilidade e que foi reforçado pela obrigatoriedade da Conmebol.


Neste ano de 2022, será o primeiro ano que o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino será composto por 3 divisões (A1, A2 e A3), dando mais oportunidades de profissionalização ou qualificação tanto para jogadoras como para treinadoras. E no masculino, a série D com 68 times (mais clubes que a soma de todas as séries do futebol feminino, 64) completa neste ano 13 anos de existência.


Treinador de escola de futebol: De todos os pré-requisitos, esse é o que mais me chama atenção. A mulher que joga futebol tem inúmeras dificuldades para ingressar em uma Universidade. Quando joga futebol "profissionalmente" recebe (quando recebe) de forma escassa em uma modalidade que até hoje não se apresenta com um calendário anual (universidades e cursos são pagos mensalmente, mas o futebol feminino é por temporada de um possível campeonato estadual que dura 1-2 meses ou um de nacional que dura de 2-5 meses). Para trabalhar em uma escola de futebol, o profissional precisa ser formado em Educação Física e/ou uma experiência significativa em sua carreira como jogador dando o direito de trabalhar em clubes de base do futebol ou em nível profissional.


Mas quando falamos de base no futebol, onde estão esses clubes de base no futebol feminino?

Existem exceções pontuais, como o Internacional e Centro Olímpico que são referências isoladas no desenvolvimento de jogadoras de futebol de base, porém faz somente 3 anos que existe um Campeonato Brasileiro de categorias de base no Brasil.


E quando pensamos nos profissionais que trabalham no futebol de base, ainda não se encontra mulheres trabalhando no futebol masculino em qualquer das categorias (base ou profissional), porém o treinador homem tem acesso livre no futebol masculino e no feminino.


É importante ressaltar que há uma forma de você acessar ao curso diretamente na Licença B, pagando um preço para o nivelamento (R$895,00) e cumprindo os pré-requisitos que são parecidos com a da C, adicionando a seguinte requisição: "(...) tempo de atuação como treinador principal de categorias de base de equipes que disputam as competições nacionais e estaduais", excluindo a experiência como professor de escolinha de futebol e, falhando em perceber, que são raros os estados que tem um campeonato estadual de base feminina.


Quando falamos de discrepância salarial, a CBF com intuito de aumentar a quantidade de mulheres no curso e amenizar os obstáculos para o acesso aos cursos, lançou uma campanha chamada "Mulheres no jogo" em que garante (mas não obriga) 20% das vagas do curso e, seguindo os "critérios estabelecidos pela CBF", é concedido descontos de 20-50% do valor total do curso. O que sem dúvida nenhuma é um começo, mas o que mais poderia ser feito?


Aqui algumas ideias:


  1. Fazer do curso algo integrado e menos hostil: Pensando em ter mais instrutores mulheres (não só na licença C e não somente falando sobre futebol feminino, o poder da motivação por associação de Albert Bandura). Por que ao invés de garantir 20% das vagas para mulheres, que tal exigir que 20% (ou algum percentual mais realista) dos alunos sejam mulheres? Há sim uma problemática da proporção, e se for um ambiente desconfortável, por que não disponibilizar cursos introdutórios (Licença C) somente para mulheres? Já existe em alguns países. Leia esse artigo da Liverpool John Moore University falando sobre experiências de mulheres no curso de treinador.

  2. Rever os pré-requisitos para que se encaixem na realidade do futebol feminino. E que o acesso das mulheres nos cursos seja feito de forma personalizada e não generalizada.

  3. Lembrar que uma treinadora inexperiente não é uma treinadora incapacitada (Leanne Norman, 2010).

  4. E mais importante, fazer da função "treinadora" uma profissão, onde exista respeito salarial, planejamento de carreira e estabilidade dentro do possível.


Não se esqueça: para ser um processo de meritocracia, as oportunidades precisam ser iguais.

E claramente elas não são, mas podem ser melhores.


Eu finalizo esse texto ressaltando que a intenção não é de criticar a CBF ou qualquer instituição e pessoa envolvida, e sim de conscientizar sobre algumas problemáticas reais no processo de capacitação de mulheres como treinadoras e as oportunidades no mercado para se qualificar. As informações e reflexões aqui explanadas visam ampliar o conhecimento de um cenário que está em ascensão (futebol feminino), mas que pouco sabemos as raizes dos problemas que hoje encontramos.

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